domingo, 20 de março de 2011

Maybe

Ontem estive preso. Lampejos do passado açoitaram-me a mente, as imagens do presente algemavam-me, enquanto as vozes gritavam, em alto e bom som, do meu direito de ficar calado. Estive ferido, algemado e calado, dentro de mim. Quis gritar, mas estava mudo. Quis fugir, mas estava preso.
Foi quando levantei a cabeça e olhei ao redor, eram muitos, indiferentes ao meu sofrimento e a minha luta. Senti-me órfão pela primeira vez na vida, sem ninguém, e uma tristeza profunda me abateu. Torturei-me, relembrando momentos difíceis que teimavam em rondar a minha mente. Lembro-me de um, entre uma multidão, que se esforçava na tentativa de me tirar dessa prisão, em vão, me oferecia a mão, mas se esquecia que estava algemado e sem forças, foi inútil. Enquanto isso, uma platéia me assistia... sem aplausos ou vaias, atônica. Nada nem ninguém me faziam sair dessa prisão em que eu mesmo me encarcerara. Por fim, quis chorar, entretanto, nem as lagrimas apareceram.
Confuso, caí. Deixei-me levar pelo turbilhão de pensamentos que assolavam minha mente e de súbito percebi o quão profundas eram as feridas deixadas pelas idéias erradas que ao longo do tempo foram se enraizando dentro de mim e que agora eram verdades absolutas que apenas me distanciava mais daquilo que era realmente necessário fazer, resumido em um verbo: esquecer, transitivo direto ou indireto, como queiram entender.
Machado de Assis ainda grita dentro de mim que “verdades absolutas são tolas”, mas, por enquanto, vou deixá-lo rouco de tanto gritar e vou esquecer que talvez eu tenha razão, que talvez eu esteja suportando uma idéia errada ou que talvez eu tenha construído a minha vida sobre um alicerce de areia, o qual o vento derrubaria a qualquer momento. Devo, então, esquecer que ontem, quem precisou de mim é quem um dia eu dei a cara à tapa, e fui estapeado. Esquecer que hoje, quem precisa muito de mim hoje não dê o devido valor a isso. Não esquecer que amanhã podem se esquecer de mim, por não ter feito o que fiz ontem e hoje.

(…) Ooh, honey, when I go out or what I'm trying to do, Can't you see, I'm still left here. (…) Maybe, dear, oh maybe, maybe, maybe, Let me help you show me how. Honey, maybe, maybe, maybe, maybe. // (Maybe – Janis Joplin)

Então, chorei, lavando-me a alma e ajudando-me a dar força ao verbo. Esquecer me libertou das algemas, embora as feridas ainda precisem de algum outro verbo, que por hora desconheço, para serem curadas. E a platéia... bem, continua atônica, não por falta de empatia ou piedade, mas porque ninguém consegue enxergar a minha prisão, somente as feridas causadas por ela.

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